O ano de 2020 está diferente. Começou com excelentes projeções de crescimento e, logo no final do primeiro trimestre, uma pandemia assolou o mundo – e, consequentemente, o mercado. A pandemia de Covid-19 afetou empresas de todo o globo, em todos os setores e segmentos. Para poderem sobreviver, as organizações precisaram - e ainda precisam - se adaptar e se reinventar com rapidez e inteligência.

Em um cenário como esse, o Departamento de Finanças tem uma elevada responsabilidade, pois há necessidade de repensar os investimentos e a forma como as empresas se relacionam com o mercado, e o profissional de finanças é parte fundamental nesse processo. Pensando nisso, realizamos um estudo para apresentar as percepções que obtivemos das empresas do interior de São Paulo sobre quais as posições que são cruciais para o momento atual e para o futuro próximo, além das mudanças e adaptações nas competências comportamentais que esses profissionais devem ter.

Entre julho e setembro de 2020, conversei com aproximadamente setenta executivos de finanças (Diretoria e C-Level) de empresas do interior do Estado de São Paulo de diversos setores, segmentos e portes, nacionais e multinacionais, questionando suas percepções sobre o futuro do mercado e da área. Além disso, foi realizada uma pesquisa com 30 respostas cujos alguns pontos serão apresentados nesse estudo.

A pandemia e seus impactos

A pandemia de Covid-19 ocasionou um isolamento baseado em distanciamento social em nossa sociedade. Tal medida afetou diretamente a forma como consumidores e empresas se relacionavam, e em diferentes escalas.

Ainda há incertezas sobre as novas tendências de consumo para o pós-Covid, mas é certo que muito do que vem acontecendo se perpetuará ou se adaptará.

Mercados que estavam operando bem no início do ano, como a aviação civil, a indústria automotiva e a de eventos (para citar apenas três), sofreram um impacto drástico em suas receitas no primeiro semestre do ano, gerando demissões em massa, férias coletivas e uma necessidade emergencial e urgente de reavaliação de investimentos e formas de gestão de caixa.

Em suma, quase todos os setores foram impactados de forma negativa e, na grande maioria dos casos, as perdas e danos são irreparáveis pelo simples fato de não haver maneiras de recuperar o que foi perdido, como no caso de indústrias sucroalcooleiras.

Sim, há setores que sofreram impactos menores, como a indústria de embalagens, impulsionada pela queda da alimentação fora do lar e pela alta da farmacêutica. A indústria de papel e celulose também se beneficiou pela alta do dólar e investiu em exportação. Ainda há o setor alimentício, fortalecido pela maior demanda global, especialmente de grãos, sementes e carnes.

Independentemente da situação, de perda de receita ou ganho de novos mercados que a pandemia gerou, a estrutura de finanças tem papel fundamental na organização das empresas para suportar o presente e se preparar para o futuro. Nas próximas páginas deste estudo, veremos muito a respeito desse cenário e como as transformações são cruciais para esta área.

Onde está a demanda?

Analisando o cenário atual e futuro, vemos que as áreas (não analisando áreas administrativas) que terão maior demanda por profissionais no curto e médio prazo são:

Fiscal

Principal motivador: empresas estão com recursos escassos e queda abrupta de vendas e faturamento. A recuperação de créditos tributários passa a ser uma excelente fonte de renda não esperada para as empresas. Além disso, o planejamento fiscal passa a ter suma relevância em como as empresas adequarão seus novos produtos. Em termos de contratações, as empresas buscarão profissionais que tenham sólidos conhecimentos tanto em Impostos Diretos quanto Indiretos. Experiência em revisão de NCM para redução de carga tributária e conhecimentos em projetos de incentivos fiscais específicos por setores (ex.: InovarAuto) serão grandes diferenciais.

Controladoria e FP&A (Financial Planning & Analysis)

Principal motivador: investimentos precisam ser revistos. Adaptações e mudanças precisam ser feitas para atender a nova realidade e a tomada de decisão deve ser rápida e direta. Compreender a situação atual da empresa e do mercado em que está para analisar cenários de prós e contras para os próximos anos passa a ser crucial e será um grande diferencial de retomada para quem se estruturar nessa área.

Financeiro / Tesouraria

Principal motivador: caixa e captação de recursos. A área de Tesouraria, que sempre foi crucial em controlar a alavancagem e o endividamento das empresas, passa a ter papel vital na manutenção do negócio.

Com a crise, há o aumento da inadimplência e, consequentemente, impacto no fluxo de caixa. Políticas de working capital com clientes, renegociação de dívidas com bancos e fornecedores e captação de recursos diversos farão toda a diferença na operação.

No gráfico abaixo, cujas informações são provenientes de respostas de pesquisa enviada a 30 executivos da área, vemos como as empresas enxergam como será o aumento da demanda de contratações por área. A demanda atual está exposta em laranja e o aumento projetado a médio prazo, em azul.

Vê-se claramente como os investimentos em pessoas e processos nas áreas citadas acima serão fundamentais.

O "novo" profissional de finanças

Habilidades comportamentais e relacionais, ou soft skills, como muitos dizem, são os novos grandes diferenciais e transformam as competências técnicas em habilidades secundárias em determinados casos. O QI (quociente de inteligência) deu lugar ao QA (quociente de adaptabilidade). Há uma análise no mundo de Recrutamento e Seleção que diz: “as pessoas são contratadas por suas habilidades técnicas e demitidas pelas comportamentais”. Isso nunca esteve tão correto e atual.

Fit cultural, adaptabilidade, tato, capacidade de transitar por outras áreas de negócios, relacionamentos interpessoais, gestão e desenvolvimento de lideranças, dinamismo, inovação, criatividade, inteligência emocional. Cada um desses fatores – e tantos outros mais - devem ser profundamente avaliados durante um processo de seleção e escolha de um novo colaborador.

Olhando para as estruturas de finanças, o profissional nunca precisou tanto se atualizar e adaptar como agora. Novos produtos, transformação e inovação digital, sistemas em nuvem, relacionamento, tudo mesclado a uma necessidade imediata de melhora de processos internos, redução de burocracia, atingimento de metas e alta performance. Em qualquer situação, a presença humana de forma positiva e ativa tem vital valor para a prosperidade da operação como um todo.

A transformação digital em finanças

Assim como sustentabilidade foi o tema mais abordado pelas empresas na última década (e ainda é de suma importância nos negócios), podemos dizer que a ‘bola da vez’ é a transformação digital. E como a transformação digital impacta a área de finanças ou os profissionais da área?

Seja na forma de automação de processos de negócios, computação em nuvem, visualização de dados ou análise avançada, a transformação digital está revolucionando o processamento de dados que antes era realizado inteiramente pelas equipes financeiras. Mas por que as empresas tendem a investir em reestruturação digital? Segundo a consultoria global Gartner, em estudo lançado em 2019, as razões mais comuns para tal são:

É consenso entre executivos do interior do estado de São Paulo que investir em transformação digital ainda é um processo relativamente caro. As tecnologias ainda estão em fases de desenvolvimento e há poucos profissionais habilitados a utilizá-las, inviabilizando um investimento em larga escala num momento de economia fragilizada como a que estamos agora.

O fato é que a transformação digital é uma realidade e acabará modificando a forma como vemos toda a estrutura de finanças. A principal mudança estará justamente na mudança de mindset geral: a automação passará a fazer a gestão de dados e informações e a equipe financeira impulsionará os negócios.

Mais uma vez, apontamos que o tato e a habilidade relacional interpessoal passam a ser pontos diferenciais para o profissional. O conhecimento técnico pode vir a se tornar num denominador comum, com pouco impacto na tomada de decisão no momento de se contratar.

Olhando sob um prisma analítico, estas mudanças já estavam sendo consideradas – e esperadas – pelas empresas. A pandemia de Covid-19 apenas acelerou o processo e revelou a fragilidade que é ter processos burocráticos que dificultam tomadas de decisões e atrasam mudanças urgentes necessárias.

O que podemos concluir?

De forma resumida, vimos que mudanças estão ocorrendo com uma velocidade e dinâmica jamais antes vistas. Tais mudanças exigem que os profissionais desenvolvam a capacidade de se adaptarem a novos cenários constantemente.

É um ciclo. A cada nova adaptação, novos modelos são desenhados e novas – e rápidas – decisões devem ser tomadas, seja para investimentos, seja para organização estrutural.

Percebemos que profissionais com perfis mais expansivos tendem a ser mais curiosos e a se aprofundarem em temas diferentes, a ‘pensarem fora da caixa’ com mais naturalidade e, consequentemente, a se portarem como líderes em momentos de crise, assumindo riscos calculados e responsabilidades além das suas. Tais comportamentos terão enorme relevância no dia-a-dia das operações de finanças.

As empresas precisarão se adaptar. Comportamentos precisarão se adequar. O ditado “não se faz uma omelete sem quebrar alguns ovos” explica bem como as áreas precisarão agir. Mudanças precisarão ser feitas, mesmo que inflijam uma dose de dor.

A área de Talent Acquisition passa a olhar como cada área da empresa será impactada de forma diferente. O profissional da área de Finanças passa a ter cada vez mais sinergia e proximidade com os profissionais de outras áreas, e perceber isso no momento do recrutamento é fundamental.

A contabilidade precisa estar próxima da logística. A controladoria, através de processos de custeio e precificação (dentre outros), precisa estar cada vez mais próxima de vendas e produção.

Comparemos as estruturas organizacionais com uma floresta. O que vemos atualmente – em muitos casos – é que cada área é uma árvore, e que consegue, olhando de sua copa para baixo, ver apenas o que está sob sua responsabilidade e não enxerga o que está acontecendo ao redor. Ela deixa de enxergar oportunidades ao redor pois sua visão está limitada.

Quando se olha com visão de floresta, de cima, enxerga-se como cada árvore impacta na transformação do todo, vê-se o que há ao redor, o que está acontecendo em outras áreas e como intervir ou dar suporte.

Por fim, chegamos à conclusão que a principal transformação que teremos no curto prazo para os profissionais de finanças é a comportamental, a sua habilidade de adaptação e de melhorar sua comunicação, relação entre áreas e departamentos.

Perceber tais competências, alinhadas à cultura organizacional e princípios da empresa, às habilidades técnicas demandadas para a posição é o ponto chave para uma contratação de sucesso e que trará bons frutos e resultados para as empresas.

Eduardo Silvestre

Consultor de Finance, Tax & Legal em Campinas 

iOS App Store logoAndroid Google Play logo